De um momento para o outro, as horas passaram a voar. A dor teve um efeito completamente oposto ao seu normal. Não me massacrou, não me comeu por dentro, não doeu. Funcionou como analgésico e de repente parece que todo o meu corpo não é capaz de dar resposta a qualquer tipo de estimulo. De momento, apenas funcionam os meus olhos, os meus dedos, os meus ouvidos e parte do meu cerebro. Talvez parte de mim esteja pretificada. As minhas lágrimas são capazes de cair de dois em dois minutos e de repente começo a sentir aquele aperto na garganta, que sei o que provoca quando tudo se liberta. E agora as minhas lágrimas começam a cair cada vez mais depressa, até molhar parte do meu cabelo e da almofada onde vou colocar a minha cabeça para, mais tarde, dormir. Mais tarde, ou talvez já. Talvez o sono leve todo este sentimento de tristeza que anestesia o meu corpo. O meu corpo imóvel. O meu corpo morto. O meu corpo vazio e sem qualquer vontade. Não há nada mais triste do que lutar em vão, embora toda a gente diga que a luta nunca é em vão. Mas é mentira. São frases feitas, bonitas e que pretendem encorajar. Mas não são sempre verdadeiras e, no fundo, toda a gente o sabe também. Por isso eu atiro as minhas armas ao chão. E desisto. Desisto de me desgastar, de me perturbar, de me psicologicamente mutilar. Não posso fazer mais nada. Cada um é livre de escolher o seu caminho e eu estou a faze-lo:desisto. Com todas as letras. Sem qualquer dúvida. Talvez o meu destino seja sempre o mesmo, ande por onde andar, esteja com quem estiver. E é tão triste e tão deprimente que eu prefiro enfiar a minha cabeça entre os cobertores e não sair mais daqui. Mas eu não o posso fazer. Eu detesto tudo isto. Detesto criar sonhos tão grandes e perceber que eles foram e serão sempre uma grande fachada. Tenho palavras para escrever um livro, talvez fosse capaz de o escrever numa noite, mas nada ia devolver aquilo que mais uma vez foi embora de mim, nem ia acariciar esta dor aguda que agora, de facto, começa realmente a moer-me.
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