sábado, 11 de fevereiro de 2012

Eu e eu

Continuo a achar-me estranha, como sempre. Nunca foi uma questão de me achar diferente dos outros ou mais especial. Sempre me achei realmente estranha. Talvez parte disso se deva a minha infância. Considero que tive uma infância feliz, em geral, mas, enquanto que os meninos e meninas da minha idade brincavam todos juntos, eu brincava sozinha, falava sozinha e o meu passatempo preferido era inventar histórias em que eu fazia de múltiplas personagens. Por muito estranho que parecesse, eu era feliz e, de certo modo, foi importante para mim, pois desenvolvi a minha imaginação e o meu pensamento, bastante. Nessa altura, eu não precisava de ninguém. Era feliz sozinha.O tempo parecia infinito e eu poderia ficar ali, sozinha, sempre, presa no meu pequeno mundo e nas minhas histórias fantásticas, histórias essas que eu manipulava como bem queria, nada acontecia contra a minha vontade. No entanto, todas as minhas histórias tinham um final feliz. 
Passado algum tempo, entrei na sociedade, porque considero que nunca o tinha feito antes e vi realmente como as pessoas poderiam ser más, mesmo enquanto pequenas. Comecei a recear tudo. Receei novas adaptações, receei desilusões, receei as pessoas. Mas sonhos? Oh sonhos, tive-os sempre... Sempre acreditei nas coisas boas, nos finais felizes, como nas minhas histórias... Feitas por mim... E tantas vezes constatei que, de facto, as histórias nem sempre têm um final feliz... Mas sempre fui a mesma tolinha, sonhadora e sempre dei valor a coisas super insignificantes. Sempre gostei de ver as pessoas á minha volta felizes. Quando era mais pequena escrevia pequenas cartas aos meus pais, quando eles discutiam demais, tudo para que o ambiente em casa se tornasse melhor, e conseguissemos todos ser felizes. Qualquer coisa que afectasse a minha estabilidade doméstica mexia comigo, assim como qualquer coisa que afectasse uma boa relação que tivesse com aqueles que, na altura, considerava amigos. Sempre fiz de tudo, com qualquer um, para que as coisas corressem bem. Chego mesmo a ter saudades minhas, saudades de como eu era nessa altura, pois ainda estava cheia de paciência para todas as desilusões. 
Hoje dou mais valor a uma noite a olhar as estrelas com alguém especial do que uma tarde nas compras. Dou mais valor a uma boa conversa do que a um lindo presente. Não há nada como disfrutar de uma boa música na companhia mais desejada ou, então, não há nada como partilhar uma tarde de experiencias sentados no chão, num sitio onde nos sintamos tão livres como uma floresta. Não há nada como correr descalço sem ter medo de sujar as meias, não há nada como mergulharmos sem termos medo de nos afogarmos, assim como não há nada que substitua um gesto de amizade pura. Para mim é tudo muito espiritual, não são necessários bens materiais para uma pessoa me conquistar. Apenas me pode conquistar com as suas atitudes e a sua personalidade. É fascinante conseguir encontrar pessoas com quem posso sonhar, posso viajar sem mesmo sair de casa, apenas com uma simples conversa... Não há nada mais mágico que isso nem há nada que consiga valer tanto como isso... Afinal, parte do que eu era em criança ainda permanece em mim... A vontade de imaginar, de sonhar, de construir algo espiritual. Só que, agora, consigo partilha-lo com as pessoas, embora poucas, porque nem todas entendem o valor espiritual de certos gestos ou palavras.

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